Design e Espiritualidade para Descolonizar o Imaginário

Por: Karine Freire

Minha pesquisa de pós-doutorado investigou a espiritualidade como um modo de descolonizar o imaginário, abrindo novos espaços na mente para a criação de mundos regenerativos, nos quais humanos e mais-que-humanos possam conviver em equilíbrio na Terra.

Vivemos em uma sociedade que encontra dificuldades para imaginar possibilidades de vida para além da estrutura econômica degenerativa em que estamos inseridos. Embora algumas pessoas e comunidades já construam modos de existência sustentados em economias solidárias, colaborativas, criativas e circulares, ainda são poucas aquelas que ousam imaginar ecotopias orientadas pelo cuidado com a casa comum e por relações mais justas entre todos os seres.

Por que descolonizar o imaginário?

Porque nossa imaginação se alimenta daquilo que absorvemos do mundo. Para romper a monocultura de percepções que limita nossos horizontes, precisamos cultivar agroflorestas na mente. Quanto mais diversos forem os modos de perceber e sentir o mundo, mais fértil se torna a imaginação.

Design como processo de imaginação crítica e coletiva

Enquanto processo criativo, coletivo e colaborativo, o design analisa criticamente os contextos e experimenta possibilidades de melhorar as condições de vida. A partir de outras ontologias e epistemologias, ele pode romper com a colonialidade da imaginação.

A espiritualidade, compreendida como o reconhecimento do nosso pertencimento à teia da vida e da nossa interdependência com tudo o que é e já foi vivo, surge como componente essencial do desenvolvimento interior necessário à sustentabilidade.

Os processos de design partem de dons humanos — sensibilidade crítica, criatividade e senso prático — para imaginar e antecipar possibilidades de existência. Design opera por antecipação, imaginação, criação e experimentação, colocando ideias no mundo por meio de protótipos e nutrindo diálogos socioculturais que fazem essas ideias evoluir.

Ontologias relacionais e o design pluriversal

Inspirado por ontologias relacionais, Arturo Escobar (2018) propõe o design pluriversal, que reconhece a espiritualidade como uma dimensão inseparável das relações entre seres humanos, natureza e cosmos. Sua proposta se apoia na compreensão de uma espiritualidade da Terra, um sistema de crenças que abrange a senciência, a sacralidade e a agência consciente dos seres não humanos (Eisenstein, 2021). Suas raízes atravessam tradições indígenas, filosofias orientais, a ecologia profunda e movimentos contemporâneos de ecoespiritualidade.

Sabedorias ancestrais e imaginação mais-que-humana

Buscando descolonizar um imaginário marcado pela cultura judaico-cristã, aprofundei minhas leituras sobre saberes de povos originários, conectando as cosmologias dos guaranis, krenaks e yanomamis com a filosofia do yoga desenvolvida na Índia.

A cultura indígena reconhece que a Natureza é povoada por seres ou entidades — os encantados — que movimentam as forças elementais da terra, da água, do fogo e do ar. Essas forças tecem nossa alma e nos nomeiam; e, ao sermos nomeados, ganhamos emoções e sentimentos.

Como resultado dessas aproximações, desenvolvi um processo de design baseado na reconexão do corpo com os quatro elementos da Natureza, abrindo espaço para uma imaginação verdadeiramente mais-que-humana.

Ailton Krenak, em Ideias para adiar o fim do mundo, nos lembra:

“Devíamos admitir a natureza como uma imensa multidão de formas, incluindo cada pedaço de nós, que somos parte de tudo: 70% de água e um monte de outros materiais que nos compõem.”

Para Krenak (2019), imaginar outros mundos “implica escutar, sentir, cheirar, inspirar, expirar aquelas camadas do que ficou fora da gente como ‘natureza’, mas que por alguma razão ainda se confunde com ela” (p. 69–70).

Em Futuro é ancestral, ele nos convida a mergulhar profundamente na terra para recriar mundos possíveis — mundos onde presenças como os encantados não sejam silenciadas; onde o corpo se reconheça em comunhão com a folha, o líquen, a água, o vento e o fogo, elementos que despertam nossa potência transcendente.

Krenak (2022) propõe que, em vez de projetarmos futuros distantes, aprendamos a receber a inventividade que chega pelas novas gerações. As crianças não são recipientes vazios; são portadoras de boas novas, trazendo criatividade e subjetividade capazes de inventar mundos.

“Inventar mundos é mais interessante que inventar futuros” (p. 100).

Uma educação inspirada nessa visão cultiva o sentir a vida em todos os seres — a árvore, o peixe, a montanha, o pássaro — e valoriza a contemplação dos pensamentos, a associação criativa de ideias e o brincar com os elementos.

É uma educação do presente, enraizada na experiência da infância como fundamento da vida. Uma educação que reconhece nas crianças, recém-chegadas à Terra, a possibilidade de trazer um presente de ancestralidade para aqueles que já estão aqui — e que pode se tornar um elemento essencial de transição global e mudança de mentalidade (Krenak, 2019).

Imaginar mundos possíveis

Dessas bases surge a ideia de aproximar crianças e adultos da imaginação de outros mundos, rompendo com o humano moderno antropocêntrico e abrindo caminhos para modos de habitar a Terra que permitam o florescimento de todas as formas de vida.

Pensei, então, em um livro como espaço de encontro, diálogo e troca entre crianças e adultos, por meio de uma história ilustrada capaz de estimular a imaginação a se reconectar com a Natureza através de práticas de yoga. Assim nasce Somos Natureza: a yoga da floresta, um livro inspirado na sabedoria dos povos da floresta, que nos recordam: Somos Natureza.

O livro como tecnologia social ancestral

O livro é um convite para reimaginarmos nosso modo de estar no mundo.
Um convite para nos percebermos como células vivas e regenerantes dos ecossistemas que habitamos e, a partir desse lugar de interdependência, criarmos hábitos, atitudes e ações que contribuam para a regeneração da Terra — em benefício de todos os seres.

Ele é também uma experiência de alianças afetivas: encontro entre mundos não iguais, entre cosmovisões distintas, entre humanos e mais-que-humanos. Abre-se, ali, o espaço para um pluriverso — mundos onde caibam outros mundos (Krenak, 2022).

O livro foi escrito a partir de um sujeito oculto e ilustrado sem marcadores de gênero, para que qualquer pessoa possa se reconhecer na história e praticar a imaginação de outros mundos. Os personagens foram criados de modo a traduzir, na visualidade, a possibilidade de imaginar a partir do ponto de vista de diferentes seres e reinos.

A inspiração vem da educação indígena, na qual as crianças aprendem com histórias contadas pelos mais velhos e, desde cedo, colocam o coração no ritmo da Terra (Krenak, 2022).

A imaginação de mundos regenerativos

O que podemos aprender com os reinos vegetal, animal e mineral?

Que mundos estamos criando para as crianças de hoje — e para as que virão em 30 ou 50 anos? O chamado é simples e profundo: imaginar hoje para que o amanhã seja fértil de vida.

Sessão de autógrafos em várias cidades. Esta em Porto Alegre
Lançamento com mais-que-humanos. Mudas de árvores nativas foram distribuídas para reflorestar a Mata Atlântica.
Dupla de cocriação: Ilustradora Hellen Fanucchi e eu
Atividade de imaginação com crianças a partir da proposta do livro. Sonhários vestíveis de mundos regenerativos na Escola E-faz como parte da Semana Donut 2025

Agradecimentos:

O presente livro foi publicado graças ao apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (FAPERJ). A pesquisa que deu origem a este livro foi realizada com financiamento da FAPERJ,por conta do processo SEI-260003/016639/2023.


Referências
Krenak. Ailton. Ideias para Adiar o Fim do Mundo. São Paulo: Companhia das Letras (2019)
Krenak. Ailton. O futuro é ancestral. São Paulo: Companhia das Letras (2022)
Eisenstein, Charles. Espiritualidade da Terra. In: KOTHARI, Ashish; SALLEH, Ariel; ESCOBAR, Arturo; DEMARIA, Federico; ACOSTA, Alberto (Org.).Pluriverso: um dicionário do pós-desenvolvimento. São Paulo: Elefante, 2019. p. 336-339.
Escobar, Arturo. Designs for the Pluriverse: Radical Interdependence, Autonomy, and the Making of Worlds. Durham: Duke University Press, 2018.

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