Autoria: Clara Acioli (2025)
Orientação: Prof. Dr. Carlo Franzato (PUC-Rio)
A pesquisa de mestrado (2023-2025) de Clara Acioli com orientação do Prof. Dr. Carlo Franzato buscou reunir o design, a arte, a antropologia e a biologia para exercitar um design orientado a práticas de simpoiese por meio do cultivo dos fungos. Ao reconhecer o micélio como metáfora e como matéria para moldar objetos, a pesquisa experimentou possibilidades de “fazer-design-com” os fungos, buscando perspectivas menos antropocêntricas do design, e mais alinhadas com uma lógica ecossistêmica. A pesquisa representa um caminho de aprendizado sobre outras formas de “fazer design” atentando-se à dilemas que emergem das práticas do biodesign e que apresentam insights relevantes para o design para a sustentabilidade.


Ilustraçãos de fungos (cortesia da autora)
Os fungos são excelentes parcerias para entender as dinâmicas planetárias e o ecossistema Terrestre. Além de evocarem metáforas valiosas, têm sido estudados por cientistas e designers como matriz de materiais compósitos, com potencial de aplicação na arquitetura e no design.
Nesse trabalho, nos aproximamos dos fungos para entender melhor as dimensões de sua aplicação no design e as questões aquém de sua promessa como material inovador e sustentável. Escolhemos observar como se comportam no ambiente e como podemos cultivá-los de forma mais correspondente com suas necessidades e habitualidades in natura, situando a pesquisa no ecossistema em que ela se insere, no caso, a Mata Atlântica do Rio de Janeiro. Nomeamos essas tentativas de cultivo de “fazer-com”, apoiados no conceito da simpoiese usado por Donna Haraway.
Entendemos as práticas simpoiéticas até aqui como uma abertura às intimidades interespecíficas, de forma consciente, à vista de uma mentalidade da natureza como parceria de criação e convivência, não como recurso. Esta abordagem implica assumir outras temporalidades e imprevisibilidades nos processos de design, estando abertos a aprender formas de dialogar e negociar através da observação e do convívio.
Sim + poiesis. O “sim” vem de simbiose, que é a relação íntima entre dois ou mais organismos vivos de espécies distintas; e “poiesis” é a ação de criar, fazer.
Simpoiese é fazer(-se)-com.
Como negociar formas, estruturas e texturas? Como fazer-com pode colaborar para um design mais consciente, aproximando-nos da realidade Terrana multiespécies, em vista de um mundo onde natureza e cultura não sejam antônimos? É possível fazer-com no design?

Crescimento micelial em Boletus, Tricholoma e Amanita (Sheldrake, 2021, p. 62)
O projeto adotou uma metodologia prático-teórica, e interdisciplinar, seguindo o método research through design (RtD). É norteada pelos conceitos da simpoiese de Donna Haraway (2023) e das imersões apaixonadas de Van Dooren et al. (2016). Buscou contribuir para um biodesign próximo da simpoiese, mais alinhado com uma perspectiva ecossistêmica e relacional, a partir de referências projetuais reunidas em um atlas: https://atlassimpoiese.hotglue.me/; e dos ensinamentos proporcionados pelos fungos durante as práticas experimentais.
Nos aproveitando da localização do campus da PUC-Rio, que possui trechos de floresta dentro da universidade, a pesquisa se deu in loco, em um canteiro selecionado e preparado no NIMA – Nucleo Interdisciplinar de Meio Ambiente; E ao mesmo tempo no laboratório em casa, como forma de comparação das práticas e dinâmicas.

Alguns dos objetivos da pesquisa foram:
– Transpor o conceito da simpoiese para práticas de fazer;
– Apresentar um panorama dos projetos que conversam com a simpoiese;
– Listar dilemas e questões éticas da prática de cultivo com fungos;
– Conscientizar sobre a diversidade da funga da Mata Atlântica;
– Definir diretrizes iniciais para um design nos princípios da simpoiese.
As considerações finais trazem reflexões sobre o fazer-com fungos, a simpoiese no design e do biodesign, respondendo a algumas questões e formulando outras. Foi organizada em quatro pontos: o tempo e a presença; a importância e beleza de se fazer design de forma situada, local e biodiversa; os desafios de lidar com o controle e o diálogo interespecífico; e, por fim, uma reflexão crítica e propositiva para o campo do biodesign. Nesses pontos discutimos a possibilidade de estabelecer novas relações no processo de criação de produtos/materiais/coisas, assim como na pesquisa, diante dos desafios de fazer mundos, de viver e morrer bem uns com os outros.
Nem os bichos nem as pessoas poderiam ter existido ou resistido se não pudessem contar uns com os outros por meio de práticas curiosas e contínuas. Vinculados a um passado ainda em curso, eles avançam juntos em presentes espessos e futuros ainda possíveis. (Haraway, 2023, p.239)
Referências
HARAWAY, D. Ficar com o problema: fazer parentes no Chthuluceno. Tradução Ana Luiza Braga. São Paulo: n-1 edições, 2023.
SHELDRAKE, M. A Trama da Vida: como os fungos constroem o mundo. Tradução Gilberto Stam. São Paulo: Fósforo /Ubu editora, 2021
VAN DOOREN, T., KIRSKEY E., MUNSTER U. Estudos multiespécies: cultivando artes de atentividade. Climacom (online): Campinas, Incertezas, ano 3, n. 7, p. 39-66, 2016.
