Cidades do Amanhã

Cidades do Amanhã é uma metodologia de alfabetização em futuros desenvolvida colaborativamente pelo laboratório de design socioambiental Ecotopias, da PUC-Rio, e pela Fundação Torino. Voltada ao contexto escolar, a proposta articula práticas de antecipação pelo design, educação para a criatividade e experimentação teatral para convidar estudantes a imaginar cenários urbanos de convivialidade e sustentabilidade regenerativa.

Ao longo de cinco etapas, os estudantes constroem visões de futuros, criam personagens e máscaras, escrevem histórias, desenvolvem protótipos diegéticos e as apresentam no Teatro dos Futuros.

O percurso estimula imaginação, pensamento crítico, empatia e protagonismo, articulando diferentes perspectivas sobre os mundos possíveis. Os resultados foram socializados na exposição Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade, na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte.





O processo adapta para o contexto escolar diversas metodologias de design e antecipação (e.g. Alana, 2015; Fuel4Design, 2021). Foi organizado em cinco etapas encadeadas. Na primeira, Visões de futuros, os estudantes investigaram e discutiram criticamente projetos e imagens de cidades futurísticas e, a partir deles, imaginaram transformações possíveis para Belo Horizonte. Em grupos, construíram visões de futuros orientadas por princípios de sustentabilidade e convivialidade, buscando imaginar outras formas de viver e de se relacionar na cidade.

Trabalho em grupo

Na segunda etapa, Máscaras, essas visões passaram a ser experimentadas a partir da perspectiva de seus possíveis habitantes. Os estudantes criaram personas, personagens e personificações, incluindo seres humanos, outras formas de vida, objetos, lugares, fenômenos e entidades culturais (Dolejšová, 2023; Michelin, 2024). A atividade utiliza máscaras como dispositivos de deslocamento de perspectiva e incorporação imaginativa, favorecendo a experimentação de diferentes maneiras de perceber, viver e se relacionar nos mundos imaginados.

Criação das máscaras

Na terceira etapa, Um dia na vida, os grupos utilizaram as personagens e os mundos construídos para escrever histórias colaborativas. O processo foi apoiado pela prática de uma técnica de elaboração de mapas de roteirização. A lógica combinatória utilizada nessa etapa dialoga especialmente com as experiências de Mari (1965) e Munari (1975), enquanto a construção narrativa se aproxima das práticas de invenção de histórias propostas por Rodari (1982).

Redação das histórias

Na quarta etapa, Protótipos diegéticos, os estudantes identificaram objetos pertencentes aos mundos imaginados e os desenvolveram por meio de desenhos e modelos rudimentares. Esses objetos não eram concebidos apenas como representações das ideias elaboradas, mas como elementos que poderiam efetivamente existir dentro das histórias, contribuindo para tornar os futuros imaginados mais concretos, compreensíveis e compartilháveis.

Teatro dos futuros (créditos da foto: Voltz Design)

Finalmente, na quinta etapa, Teatro dos Futuros, os grupos reuniram histórias, máscaras e protótipos diegéticos em uma performance coletiva. Antes da apresentação, os estudantes ensaiaram a leitura e a interpretação das histórias, trabalhando entonação, sons e dinâmicas de atuação. Também produziram efeitos sonoros por meio de instrumentos musicais e materiais improvisados, aproximando a atividade de práticas de teatro e de teatro de formas animadas (Zavalloni; Tontini, 2004). As apresentações foram realizadas diante da turma e constituíram um
momento de compartilhamento e discussão dos futuros imaginados.

O processo foi concluído com a socialização dos resultados, ampliando o exercício prospectivo para além dos grupos que participaram diretamente das atividades. Os trabalhos produzidos pelos estudantes, incluindo cidades imaginadas e artefatos desenvolvidos ao longo do percurso, foram apresentados na exposição Celebrar as ruas: 50 anos de Fiat e brasilidade, realizada na Casa Fiat de Cultura, em Belo Horizonte, de 7 de julho a 11 de outubro de 2026. Integrados à dimensão educativa da exposição, os trabalhos passaram a circular em um contexto público, valorizando a produção dos estudantes e permitindo que seus futuros imaginados fossem compartilhados com outros públicos.

Referências

ALANA. Criativos da Escola. São Paulo: Instituto Alana, 2015. Disponível
em: https://criativosdaescola.com.br/

FUEL4DESIGN. Futures Design Toolkit. 2021. https://fuel4design.org/wp-
content/uploads/2021/04/00-IO4_FUTURES-DESIGN-TOOLKIT_APR21.pdf

IDEO. Design thinking for educators. Palo Alto: IDEO, 2012. Disponível
em: https://designthinking.ideo.com/resources/design-thinking-for-educators

MARI, Enzo. Il gioco delle favole. Milano: Danese, 1965.

MICHELIN, Coral. Design Ecossistêmico: Um caminho eco-decolonial para a regeneração. Rio de Janeiro: Bambual Editora, 2024.

MUNARI, Bruno. Trasformazioni. Milano: Danese, 1975.

RODARI, Gianni. Gramática da fantasia: introdução à arte de inventar histórias. São Paulo: Summus, 1982.

ZAVALLONI, Gianfranco; TONTINI, Flavio. Señoras y señores: ¡Los títeres!. Martorano di Cesena: Arci Solidarietà Cesenate, 2004.

DOLEJŠOVÁ, M. (org.). CreaTures Co-Laboratory Catalogue. Espoo: Aalto PrintLab, 2023. https://doi.org/10.5281/zenodo.7525506