Autoria: Natalí Abreu Garcia (2022)
Orientadora: Prof.ª Dra. Karine de Mello Freire (Unisinos)
Coorientador: Prof. Dr. Carlo Franzato (PUC-Rio)
Instituições: Unisinos / PUC-Rio (Laboratório Ecotopias)
Este projeto explora a interseção entre o Design Estratégico, a Sustentabilidade Regenerativa e a Ecosofia de Félix Guattari. A pesquisa propõe expandir os limites tradicionais do design ao atuar simultaneamente nos três registros ecológicos: meio ambiente, relações sociais e subjetividades. Investigando como catalisar movimentos evolucionários complexos, a metodologia afasta-se de visões mecanicistas e antropocêntricas para focar no potencial qualitativo, na autonomia e no cuidado ecossistêmico. Como etapa central da investigação, foi realizada uma imersão teórico-prática de quatro dias com um grupo multidisciplinar na Serra da Cantareira (SP). Através de uma abordagem “sentipensante” e de uma ética cartográfica, os participantes experimentaram movimentos projetuais aplicados ao território e co-criaram produções ético-estético-políticas. O resultado consolidou seis princípios para a prática de um Design Estratégico Regenerativo comprometido com a vida e a autotransformação.

Introdução e Fundamentação
Frente às policrises globais, abordagens que buscam apenas mitigar impactos mostram-se insuficientes. Esta pesquisa de Mestrado propõe o desenvolvimento do Design Estratégico sob o paradigma da Sustentabilidade Regenerativa. Os autores propõem três sentidos para Regeneração: Restabelecimento (recuperação da saúde sistêmica), Recursividade (autonomia e circularidade autopoietica) e Renascimento (coevolução rumo a ordens mais complexas de valor). E para estruturar uma transição projetual, utiliza-se a Ecosofia de Guattari como enquadramento. Essa lente exige que o projeto atue de forma indissociável na articulação do meio ambiente, das relações sociais e, essencialmente, das formações subjetivas.

A Experiência Imersiva
O percurso metodológico contou com uma imersão experimental de quatro dias na Serra da Cantareira (Mairiporã/SP) em 2022. O ambiente em meio à Mata Atlântica foi escolhido para evidenciar a nossa condição de “Interser” — a relação indissociável de interexistência com o meio vivo. Inspirado pelo modelo educacional da Schumacher College e nas viagens ecosóficas do colega pesquisador Rodrigo Reis (IA/UNESP), o encontro pautou-se na horizontalidade e no tempo de convivência qualitativa.
Adotou-se a postura “sentipensante”, integrando mente, coração e corporeidade. Os participantes realizaram caminhadas de pés descalços, dinâmicas de percepção sensorial e exercícios de aterramento. O centro de desenvolvimento humano em que foi realizada a imersão serviu como caso prático para investigar como dinâmicas relacionais locais reverberam nas escalas de sub e suprassistemas.
Movimentos Projetuais e Cartografia

Apoiados por uma ética cartográfica, os workshops estruturaram-se em três movimentos espiralados:
- Mapeamento: Compreensão das dinâmicas do lugar para definir sua singularidade. O grupo expressou coletivamente essas percepções traçando visualidades e outros registros sobre um tapete de papel kraft e em rodas de conversa.
- Prospecção: Exercício de imaginação focado no potencial de futuros viáveis, discernindo a vocação da organização como agregadora de valor ecossistêmico.
- Catalisação: Identificação das capacidades e intervenções nodais necessárias hoje para desencadear os processos de transformação desejados.
Produções e Resultados
O cruzamento entre teoria e sensibilidade gerou duas expressões artísticas e micropolíticas de ressingularização:
- Manifesto RegenerARTivista “Regeneração”: Áudio e vídeo gravados coletivamente que propõem uma compostagem de valores contra-hegemônicos da regeneração, na tentativa de proteger o conceito emergente de apropriações superficiais.
- Ecoperformance “A feiticeira e seus feitiços”: Obra performática em ambiente natural que discute as violências coloniais históricas exercidas sobre os corpos e a Terra.
A análise e revisão bibliográfica permitiu formular seis Princípios da Prática Regenerativa: Cuidar para permitir a emergência da saúde integral; Promover a autonomia em relações recíprocas e fluxos circulares; Buscar a coevolução ressignificando e desenvolvendo relações de valor com o ecossistema; Autotransformar-se a partir de uma visão ecossistêmica; Desenvolver comunalidade através da eco-dialogicidade; e Desenvolver o conhecimento ecológico de interexistência.
Conclusão
A hibridização do Design Estratégico com o Design Regenerativo e a lógica dos sistemas vivos contribui para preencher uma lacuna disciplinar: a consideração ativa das subjetividades e a implicação pessoal do sujeito projetista/designer. O design estratégico regenerativo propõe, portanto, que projetar novas estratégias organizacionais e sistemas de valor exige, fundamentalmente, projetar novas maneiras de nos percebermos e agirmos como parte da natureza.
Link para download da dissertação: https://www.repositorio.jesuita.org.br/handle/UNISINOS/12014
Referências
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