Cartografia – um método e ética de pesquisa qualitativa

Por: Natalí Garcia

Já ouviu falar da Cartografia? Inicialmente proposta pelos filósofos Deleuze e Guattari no livro “Mil Platôs”, a cartografia é uma ética para uma pesquisa que enfrente os modos tradicionais da ciência e academia, que são, por muitas vezes, insuficientes para lidarmos com a complexidade do nosso mundo.

No modo científico tradicional o pesquisador adota uma suposta neutralidade na coleta de dados. Ou seja, há uma imaginada divisão entre aquele que pesquisa e o que é pesquisado (Sujeito versus Objeto). Mas essa divisão é impossível em realidade, nós estamos completamente implicados com aquilo que pesquisamos, e mais, nós trazemos, sim, um ponto de vista crítico que advém do nosso repertório e perspectivas sobre o que foi pesquisado e além.

Deleuze e Guattari então propuseram um jeito de fazer que não se concentrasse em representar a realidade como coisas estáticas, mas sim cartografar (mapear) os processos enquanto estes acontecem. Se situar no espaço a ser cartografado e perceber as linhas de forças que ali percorrem – forças de dinâmicas sociais, ambientais e subjetivas (seja essa subjetividade individual ou coletiva).

(Apesar do termo ser emprestado da geografia e amplamente utilizado na confecção de mapas geográficos, a cartografia não diz apenas de territórios físicos estáticos: é um mapear processos vivos)

A partir desta proposta de Guattari e Deleuze, outros acadêmicos e pesquisadores se apropriaram e criaram métodos e práticas de pesquisa qualitativa. Inclusive pesquisadores brasileiros protagonizaram tais movimentos, como Suely Rolnik, Virginia Kastrup e Luciano da Costa (ver referências no artigo abaixo).

Ao contrário da pesquisa tradicional, na cartografia não partimos com hipóteses duras, permitimos que os territórios existenciais se revelem, podendo e devendo alterar o curso de nossa investigação.

Na cartografia (ou em uma pesquisa de ética cartográfica) não existe coletar dados, nós os produzimos em conjunto. Isso porque a cartografia propõe a análise das produções de subjetividades a partir de uma atuação inventiva – ao mesmo tempo que mapeia ela também agencia mudanças e transformações – ou seja, critica e faz ver, refletir e agir.

E o que esperar de uma cartografia? Podemos dizer que as produções de um percurso cartográfico são bem variados, mas em geral temos visualidades e narrativas. Podendo ter mapas, diagramas e fascículos/cadernos que podem ser criados individual ou coletivamente.

Para saber mais, leia o artigo na íntegra.

Abaixo um exercício cartográfico:

Referências

COSTA, L. A cartografia parece ser mais uma ética (euma política) do que uma metodologia de pesquisa.Paralelo 31, v. 2, n. 15, p. 10, 10 dez. 2020.

COSTA, L. Cartografia: uma outra forma de pesquisar.Revista Digital do LAV, [S. l.], v. 7, n. 2, p. 066–077, 2014.DOI: 10.5902/1983734815111. Disponível em: https://periodicos.ufsm.br/revislav/article/view/15111.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo eesquizofrenia. Tradução Aurélio Guerra Neto e CéliaPinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995a. V. 1.

DELEUZE, G.; GUATTARI, F. Mil Platôs: capitalismo eesquizofrenia. Tradução Aurélio Guerra Neto e CéliaPinto Costa. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1995b. V. 3.

DELEUZE, G; PARNET, C. Diálogos. São Paulo: EditoraEscuta, 1998.

PASSOS, E.; KASTRUP, V.; ESCÓSSIA, L. Pistas do méto-do da cartografia: pesquisa-intervenção e produçãode subjetividade Porto Alegre: Sulinas, 2009. V. 1.

PASSOS, E.; KASTRUP, V.; TEDESCO, S. Pistas do métododa cartografia: a experiência da pesquisa e o plano co-mum. Porto Alegre: Sulinas, 2014. V. 2

Imagem de capa: Counter-mapping Queen Mary, finding your way across borders and through filters, 2010. Fonte.

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